É notável que o cinema e a música por vezes caminhem lado a lado sem se aperceberem. No inicio dos anos 60 explodiu em Inglaterra o chamado movimento pop (que muitos chamariam de rock ou de pop-rock), um movimento de jovens que durante anos ouviram, quase ás escondidas em caves escuras e terraços de prédios, aos poderosos albuns de nomes como Jonhie Lee Hooker ou Ray Charles, sem esquecer o mais branco dos negros, um tal de Elvis. Desses jovens alguns viraram musicos e desses musicos nasceram duas bandas fundamentais: os Beatles e os Stones.
No inicio, ambas as bandas caminhavam lado a lado. Tinham bebido nas mesmas fontes, trocavam musicas e batidas entre si, davam concertos juntos. Caminhavam alegremente rumo ao desconhecido. Depois veio o impacto da Beatlemania e da Stonemania (nunca ao mesmo nivel) e, de um momento para o outro, tudo mudou. Aqueles que caminhavam lado a lado decidiram seguir caminhos opostos. Uma banda radicalizou-se mais, foi procurar outras inspirações, outros sons e atmosferas. Outra centrou-se no que sempre fez e tornou-se numa instituição, uma verdadeira pedra amovivel. Nunca mais seriam os mesmos, nunca mais se tratariam da mesma forma. E quando um acabou, o outro pode voltar a respirar de alivio. Agora tinha o espaço todo para si, para se proclamar como o último mito vivo de uma era de adoradores de mitos do presente e do passado.
Serve isto para contar uma história de cinema que se desenrolou por essa altura e que tem semelhanças notáveis. Não se passou nas cavernas escuras de Londres, mas sim nas apertadas salas de cinema de Paris e nos escritórios de uma mitica revista chamada de Cahiers du Cinema. Não tinha melómanos, mas sim cinéfilos. E desses cinéfilos alguns se fizeram realizadores. E também eles de inicio beberam das mesmas fontes, não Hooker ou Charles, mas Hawks, Hitchock, Rosselini ou Renoir. Também eles trocaram ideias e argumentos no inicio. Também eles se publicitavam qual escola do elogio mutuo nos filmes de cada um. E também eles vingaram junto do público até ao momento em que viraram costas e nunca mais se voltaram a falar. Foi no Maio de 68, onde, apanhados desprevenidos em Cannes (aproveito para evocar o interessante certame deste ano) ambos perceberam que o destino já tinha estabelecido que iriam viver de costas voltadas para todo o sempre. Não foram procurar outros sons. Foram procurar outras formas de mostrar imagens. Um radicalizou-se, apeteceu-lhe extrapolar o que já tinha vindo a fazer ao longo de oito anos, descontruindo a narrativa, brincando com som e imagem como quem brinca com legos. Fazer do cinema algo absoluto. Outro quis olhar para o passado, já que “não tinha antenas para captar o futuro”. Amou os livros como amou o cinema e quis fazer cine-livros para o resto da sua vida.
Estes não se chamavam Beatles e Stones. Chamavam-se Jean-Luc Godard e François Truffaut. Um fez A Bout de Soufle, Une Femme Est Une Femme ou Pierrot le Fou. O outro assinou Quatrecents Coups, Jules et Jim e Deux Anglaise et le Continent. Ambos simbolizaram, cada um da sua maneira, a essência da Nouvelle Vague, a última grande escola artistica europeia. Ambos fizeram verdadeiras obras-primas, ainda hoje idolatradas por muitos amantes de cinema. Ambos mostraram ser imortais, tal como os seus congeneres musicais da época. Cada qual à sua maneira.
Como disse Jacques Rivette à época, “não espanta que Jean-Luc e François se tenham desentendido. O que espanta é que tenham demorado tanto tempo“. Tal como nos Beatles e nos Stones, também Jean-Luc e François faziam a mesma coisa de forma completamente diferente. Um privilegiava o enredo, os actores, o classicismo. Outro queria experimentar tudo, qual Álvaro de Campos da imagem, e usava tudo aquilo como desculpa para inovar, para atingir o máximo que o cinema lhe podia dar. Nenhum deles voltou a ter igual no panorama cinematográfico europeu. Um cinema que faz tanta falta. Uma escola que deixa saudades e que clama por sucessores, onde eles parecem não existir.
Por tudo isto, hoje continuam a ser mitos inesqueciveis. Um mito vivo e um mito morto. Jean-Luc continua a explorar. Truffaut morreu. A Cinemateca homenageia-o. O amantes do cinema também. Porque como ele nunca mais houve outro deste lado do Continente. Dizia-se que se definia uma pessoa musicalmente se ela fosse pelos Beatles ou pelos Stones. Também se pode fazer isso no cinema com Jean-Luc e François.
Se na música sou pelos Beatles, no cinema sou por Truffaut!