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Sorin contra-ataca

02.Jun.2005

Depois de Histórias Minimas ter ganho o Golfinho de Ouro em 2003, carlos Sorin apresenta a competição Bombom - El Perro. De novo na Patagónia, o herói desta história, um mecânico descobre que a sua condição de desempregado o pode levar a conhecer muita gente nova, um cão e com este um novo pequeno mundo: o das mostras e competições caninas.

Numa altura em que o assunto dos cães perigosos é tema de polémica e de nova legislação em Portugal, o trama do filme não deixa de ser interessante.

A bancarrota que se fez sentir na Argentina não passa despercebida mas também não é exagerada. Não há personagem que não se queixe de falta de plata, mas à parte disso o filme tem um tom muito descontraído.

Dá ideia de ser uma história interminável, aliás, o filme, na minha modesta opinião não tem propriamente um fim.

A espontaneidade e ar bonacheirão de Villegas, a personagem central, dá ao filme uma grande qualidade. Tudo parece real mas não sai do regime ficcional e não imita documentário de câmara solta como em Trier.

Sem dúvida, um bom filme. Mas o júri é diferente e a festa de 2003 pode não se repetir…

Schechter: arma de crítica maciça

02.Jun.2005

O filme Weapons of Mass Deception do independente americano Danny Schechter é um convite para termos um olhar crítico acerca dos aglomerados de comunicação social dos Estados Unidos da América na cobertura da guerra do Iraque. As guerras de acordo com este documentário são também travadas pelos meios de comunicação social (m.c.s.) e a guerra do Iraque é um círculo vicioso: os meios alimentaram a guerra e esta alimentou os meios. A montagem do filme é moldada pelo prisma da conspiração: a grande maioria das citações são escolhidas por conterem as falhas da campanha de (des)informação do Pentágono e da administração Bush.

As ideias principais são:
1. os meios são manipulados por interesses económicos,
2. subornaram Saddam para que este conceda vistos de entrada aos jornalistas
3. muitos jornalistas são aventureiros e querem ser heróis, querem ter guerra no currículo.
4. existem 5 guerras: 1ª a real (ar, terra,mar), 2ª a vista pelos m.c.s. da Europa 3ª a vista pelos m.c.s. dos países árabes, 4ª a vista pelos m.c.s. dos EUA e a 5ª a vista pelos m.c.s. do Resto do Mundo. E todas são diferentes, não existem versões coincidentes, um mesmo episódio é relatado de formas diversas conforme o sítio de onde é noticiada.

Face a este filme é difícil ficarmos indiferentes. A atitude do realizador/relator/analista afirma-se crítica. Mas é difícil escapar ao maniqueísmo do jornalismo de verdade versus pseudo-jornalismo praticado na Guerra do Iraque. A procura pela verdade torna-se obssessiva e nem sempre rigorosa.

Ficamos com duas opções. Ou caímos num delírio paranóide e intimidatório (por exemplo, acreditamos que a morte do jornalista da Reuters pelo canhão dos americanos foi um acto propositado da administração americana, para intimidar jornalistas independentes) ou aceitamos as desculpas de maus jornalistas que afirmam ter feito o seu melhor com o escasso material de que dispunham…

O meio termo é o de que há boas coberturas e más coberturas dos acontecimentos, mas não é um meio termo muito satisfatório.

É por isso que trabalhos sobre a manipulação e influência dos m.c.s. e da sua agenda no opinion making e na legitimação de decisões políticas são importantes. Ou o filme dá uma visão distorcida e enviesada da realidade ou a realidade que nos entrou em casa pelas televisões é que foi fortemente condicionada. E essa é uma escolha que ninguém tem meios para fazer de forma ajuizada, embora haja a meu ver alguns factos que são indesmentíveis: o 11 de setembro reforçou o nacionalismo e coesão tipicamente americanos e incentivou a doutrinazação libertadora do Iraque. Ainda que para isso os tipos tenham de ter comido umas bombas.

Agora não nos podemos esquecer é que esta verdade de Schechter também é vinculada por um m.c.s., também ele sujeito a manipulação e também ele com a capacidade de aumentar as falhas exageradamente: efeito de lupa…

É verdade que análises de conteúdo independentes provaram que uma larga maioria (mais de 95%) dos artigos de opinião, editoriais e notícias do pós 11 de Setembro eram pró-guerra. Portanto as alternativas à guerra foram abafadas da discussão pública. E como dizia um professor meu, quando não há alternativas há totalitarismo!

Mas também é verdade que este documento dá muito peso e espaço às opiniões alternativas no meio jornalístico, às organizações e televisões independentes de fraca expressão e defensoras do jornalismo de verdade, aos conteúdos de internet anti-Bush e às citações constragedoras retiradas de fontes oficiais mas fora do contexto em que foram proferidas.

Ponderando tudo isto, podemos afirmar que este documentário não pode deixar de ser uma arma de crítica maciça ao newsmaking americano e consequentemente ao produto noticioso de baixa qualidade que os americanos consomem diaria e credulamente sem terem escudos de protecção…