Num festival de cinema, regra geral, a abundância da oferta impede os espectadores de terem acesso a tudo o que de interessante se realiza. Talvez por isso, foi reduzida a assistência à mesa redonda em que estiveram presentes os cineastas moçambicanos Horácio Comé e Karl de Sousa. Por eles ficámos a conhecer as condições inimagináveis em que se faz cinema em Moçambique, assim como a quase impossibilidade de levarem as suas produções até ao grande público. Existem apenas cinco ou seis salas, propriedade da Lusomundo, preenchidas com os sub-produtos do cinema americano, e as restantes, quase todas propriedade de paquistaneses, só exibem filmes indianos. Para os cineastas moçambicanos, que fazem filmes sobre o seu país - ficação e documental -, fica apenas uma sala no Maputo, e os espaços improvisados nos pequenos centros populacionais aonde se deslocam. O estímulo que lhes permite continuar, apesar de todas as limitações, vão buscá-lo aos festivais de cinema, sobretudo na Europa e no Brasil, onde a qualidade técnica e humana das suas obras, estão a ser devidamente apreciadas.
De Portugal não recebem apoio, embora o desejem. Criticam a RTP África por passar conteúdos que pouco ou nada interessam aos moçambicanos. Em vez de recorrerem à criatividade local, preferem transmitir por exemplo as Lições do Tonecas, numa total inconsciência pelo que são as necessidades culturais e interesses próprios da população local. A única proposta que receberam nesse sentido, estipulava um pagamento de cem dolares - por parte da RTP - por cada dez minutos de filme produzido localmente. Consideraram a oferta uma forma de exploração abusiva. Entretanto, recebem alguns apoios do ministério da Cooperação francês e da África do Sul. Sente-se, aliás, que culturalmente vão estando cada vez mais distanciados de Portugal…

