Certa vez, alguém descreveu “Mulholland Drive” como uma experiência de David Lynch onde ele partiu o tubo de ensaio. Em “INLAND EMPIRE”, Lynch atirou o material do laboratório todo pela janela.

a) o primeiro grupo engloba todos os resignados, que vão para a sala de cinema conformados com o facto de que não vão perceber nada do filme. Vão apenas para disfrutar sensorialmente do filme. Acreditam que David Lynch gosta de fazer filmes esquisitos apenas para serem esquisitos. Não gosto desta atitude derrotista e, por isso, é o grupo com o qual menos me identifico;
b) o segundo grupo abraça todos aqueles que vão para a sala de cinema em pulgas, adivinhando que dali vai sair o seu próximo filme favorito. Sabem que Lynch é um génio subversivo e que se esforçam em criar um sentido para o filme, elaborando teorias mirabolantes, incluindo inclusive elementos que nem sequer aparecem no ecrã. Elaboram ideias com piratas, duendes verdes e outras situações esquisitas. Simpatizo com este grupo pela sua capacidade romântica de interpretar David Lynch, mas também não me insiroo nele;
c) por fim, o terceiro e último grupo, é o grupo dos admiradores pragmáticos, aqueles que acreditam piamente que David Lynch não é um tipo assim tão esquisito quanto aparenta ser. Se fosse, talvez não tivesse uma vida social como a dele, não é verdade? Estes admiradores são aqueles que acreditam que todos os filmes de Lynch têm uma explicação razoável, um fio condutor convencional, que depois o realizador subverte, distorce e amanha segundo as suas perversões.
É neste terceiro grupo em que me incluo e, talvez por isso, explique porque tenha achado “INLAND EMPIRE” um filme relativamente simples no que diz respeito ao seu fio condutor. Claro que devo estar errado, mas comparado com “Mulholland Drive” ou “Lost Highway”, por exemplo, este fez-me muito mais sentido.


5 comentários até ao momento
Faz todo o sentido, finalmente alguém que o diz. O que me fez confusão foi ver uma data de linhas escritas em jornais da nossas praça a dizer tanta barbaridade. Se qualquer um de nós fizer um filme e puser o que nos vai na cabeça, menos convencional, o efeito seria exactamente igual. Grande filme do Sr. Lynch com muita arte pelo meio (hopper com fartura), mais o potencial de agora sim ter cada vez mais liberdade.
Não queres revelar a tua interpretação do filme para ver se coincide com a minha, Sílvio?
A mim aborrece-me tanta “liberdade” com este digital. A qualidade é mesmo muito má (alguém que lhe meta juízo na cabeça e o obrigue a usar uma HD), e o fascínio pelas texturas reflecte-se numa quantidade absurda de zooms.
Ele usou uma HD mas de supermercado. Nada daquelas panavisions xpto que o Mann utilizou no Miami Vice (por sinal foleiro até dizer chega e não me venham com a conversa do Kitch). Em relação ao digital permite-lhe liberdade para filmar o que lhe der na telha sem se preocupar com custo de pelicula, o Pedro Costa faz o mesmo por cá.
Nem por isso o filme deixa de ter momentos visuais extremamente belos, o que me parece a rever é a qualidade de certos focus e zooms que com uma camarazeca é impossivel de fazer.
Em relação à minha teoria não acho que seja teoria visto isto ser um simples arch plot com a mestria do Sr. Lynch a trabalhá-lo. Claro que tem private jokes, claro que tem imagens da cabeça dele, claro que tem pintura (ele próprio o é)e claro que mais uma vez vê L.A. como nenhum outro. Poderemos conversar sobre isso talvez no festroia, conto lá estar em várias sessões.
Segundo consta o que ele usou foi uma mini-dv daquelas mesmo muito fraquinhas. Eu não gosto do aspecto final dos exteriores, por exemplo, onde tme muita luz e as cores ficam todas queimadas. Mas concordo que tem cenas notáveis, mesmo com aquele suporte.
Teremos então oportunidade de discutir isso, Sílvio. Também conto lá estar muitas vezes
Devo dizer que me englobo nesse terceiro grupo, no entanto na primeira vez, que vejo um filme do lynch, essa deva ser de facto inserida no primeiro grupo e com todo o prazer. Enquanto ao filme, ñ me parece o mais fácil de decifrar, mas é o mais livre de todos para interpretar, o que o torna tão interessante, tb ñ gostei muito da imagem, incomoda-me imenso. Para mim de todos o melhor é o lost highway, na minha opinião, o mais enigmático, aquele que não consegui arranjar uma interpretação plausível.
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