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E o Golfinho de Ouro vai para…

10.Jun.2007

Foi, sem dúvida, um prémio justo. “Posto Fronteiriço” era o meu favorito ao grande prémio e, pelos vistos, também convenceu o júri. Para quem não esteve presente, fica aqui a lista de vencedores deste 23º Festróia.

Asfixia no novo mundo

09.Jun.2007

 

Nos Independentes Americanos, o melhor ficou reservado para o fim. «Choking Man», do realizador Steve Barron, é um mergulho na vida de um emigrante equatoriano em Nova Iorque, para quem a vida se tornou num imenso vazio.

Jorge passa a vida enfiado num lavatório, olhando pratos e um cartaz descolorado que explica como agir em caso de asfixia. A chegada ao restaurante de uma jovem chinesa desperta algo novo em Jorge, mas o fosso que existe entre ambos parece demasiado fundo e extenso para poder ser vencido. Nessa luta de aproximação, o lado negro de Jorge vai ganhando cada vez mais força, obrigando-o a um terrível confronto com ele próprio em nome da liberdade.

O filme captura a claustrofobia e o sentimento de asfixia que os recém-chegados aos Estados Unidos sentem, à medida que lutam por encontrar um significado para a vida numa cidade estranha. Recusando qualquer embelezamento, o filme faz poesia com imagens sujas e cruas, deixando que seja o silêncio o narrador. Há muito tempo que não saía de um cinema verdadeiramente tocado. Um triunfo do cinema indie que merece levar para casa o Golfinho dos Independentes Americanos.

DIA 8 (a minha visão das coisas)

09.Jun.2007

DEPOIS DO CASAMENTO (Secção Oficial)

“Depois Do Casamento” foi um dos nomeados ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro da última edição, em representação da Dinamarca, país que já arrecadou tal prémio por duas vezes no passado. Além deste, há ainda outro pormenor que salienta a internacionalização deste filme: depois de ter brilhado aqui, Mads Mikkelsen foi convidado para integrar o elenco do último episódio do agente James Bond, “Casino Royale”.

O filme começa, precisamente, por nos introduzir a personagem de Mads Mikkelsen: Jacob é uma daquelas pessoas que já não se faze - um tipo honesto, generoso e solidário, que vive na Índia, ajudando as crianças de rua num orfanato que criou. No entanto, este corre o risco de fechar, por falta de verbas que cubram as despesas. Depois, é-nos introduzido Jorgen (Rolf Lassgård), um homem de negócios de sucesso, rico, com uma família feliz e dinheiro a mais que não sabe onde gastar. Por isso decide doá-lo a um infantário na Índia…

De uma maneira ou de outra, Jorgen também não é má pessoa. No entanto, as vidas das duas personagens é-nos colocada desta forma de maneira a fazer um paralelismo entre as diferenças entre ambas. Depois, a jovem realizadora Susanne Bier promove o encontro entre os dois: Jorgen só aceita doar o dinheiro, se Jacob viajar até à Dinamarca para negociar o acordo e aparecerem juntos para dar uma boa imagem junto à imprensa.

Qual é então o problema da estória? É que a esposa de Jorgen, Helene (Sidse Babett Knudsen), conhece Jacob. E juntos têm um segredo em comum que vai deteriorar a vida de todos.

“Depois do Casamento” é um drama intenso, que visita todos os lugares-comuns da história do coitadinho. Aparentemente, é um tearjerker assumido e pretensioso, certo? Errado, porque “Depois do Casamento” tem um agrumento profundo, personagens densas e interpretações magistrais. Por isso, durante a exibição do filme, o barulho de narizes a assoar e lenços a limparem olhos lacrimejantes foi uma constante.

“Depois do Casamento” é o outr forte candidato ao Golfinho de Ouro neste 23º Festróia. E já estamos quase no dia de todas as decisões.

AVIVA, MEU AMOR (Secção Oficial)

Saiba aqui porque é que a Secção Oficial desta edição do Festróia foi fechada com chave de ouro.

Na fronteira nada de novo

08.Jun.2007

A noite de ontem assistiu a uma boa surpresa na Secção Oficial do Festroia, de seu nome «Borderpost». A acção do filme do croata Rajko Grlic decorre na fronteira da Macedónia com a Albânia, anos antes do sangrento conflito na ex-Jugoslávia, num posto fronteiriço onde reina a descontracção, o desmazelo e a inércia. O capitão, ao apanhar sífilis numa das suas idas às meninas, vai inventar um conflito com os albaneses, para que durante vinte e um dias ninguém saia do posto fronteiriço e ele tenha uma boa desculpa para evitar um encontro com a mulher antes de expurgar a doença. Lentamente, vão crescendo os índices de desconfiança, traição e paranóia que vão conduzir a um trágico desfecho.

Uma interessante, divertida e por vezes poética parábola sobre a guerra, e do modo como de repente o nada se transforma num incompreensível todo. Um candidato de peso ao Golfinho de ouro.

USA for sale

08.Jun.2007

«Iraq For Sale», que passou no Festroia integrado na secção Panorama, é o que se pode chamar de cinema de intervenção. O documentário centra-se na esfera económica do conflito, deixando de lado a legalidade ou não da intervenção.

Doseando o lado sentimental e apontando baterias para questões de facto, «Iraq For Sale» desconstrói o conflito apresentando os verdadeiros ganhadores: empresas privadas, suportadas por um escandaloso lobby governamental, que celebram contratos multimilionários com o estado onde nem sequer cumprem os serviços mínimos. No final, fica a ideia de que também os Estados Unidos estão à venda. Um documentário obrigatório.

DIA 7 (a minha visão das coisas)

08.Jun.2007

MOMENTOS AGRADÁVEIS (Secção Oficial)

A depressão é, sem dúvida, a doença-rainha urbana da sociedade contemporânea. E a psicanálise tornou-se numa terapia quase obrigatória nas grandes metrópoles do Ocidente civilizado. Por isso, pela importância que tem, não tem sido uma temática estranha no cinema, em filmes como “Uma Questão De Nervos”, “Melhor É Impossível”, ou mesmo na televisão, com o célebre “Frasier”.

“Momentos Agradáveis” debruça-se sobre este tema, mas coloca a questão ao contrário: e os próprios psicólogos, quem é que os trata? Analisam-se a eles próprios ou vão a outros psicólogos? Ou será que estão imunes às depressões?

Temos então como figura central o consultório da psicóloga Hana (Jana Janeková), onde vão parar um sem-número de estórias fellinianas, desde tarados sexuais a vítimas de violência doméstica, passando pelos simples lunáticos. No entanto, estes episódios vão-se reflectir na própria vida de Hana, que não consegue pôr em prática na sua vida familiar os conselhos que dá aos seus pacientes.

Espécie de filme-mosaico, “Momentos Agradáveis” é filmado com câmra ao ombro e (aparentemente) com luz natural, provando que o Dogma nunca morrerá. No entanto, a forma algo caótica de como as estórias se vão cruzando e a tremideira exasperante da câmara não é a ideal para um filme que se queria sério.

“Momentos Agradáveis” assemelha-se a uma sessão de psicanálise com o próprio Fellini.

VIÚVA RICA SOLTEIRA NÃO FICA (Cinema Português do Ano)

Filme de época, crónica de costumes e tragédia à portuguesa. O costume no nosso cinema, mais mais bem feito do que é costume. Para conferir aqui.

POSTO FRONTEIRIÇO (Secção Oficial)

Eis o meu favorito à conquista do Golfinho de Ouro.

HEARTBREAK HOTEL (Secção Oficial) 

Apesar do título, “Heartbreak Hotel” não é nenhum dos rock-and-roll-movies de Elvis Presley. É antes uma comédia de sucesso sueca, com a famosa (e bonita) Helena Bergström, a tal actriz que em 1995 foi considerada a melhor do século na Suécia e que, afinal, veio-se a descobrir pouco depois que tudo não tinha passado de um erro informático.

Apesar de partir da premissa de que há cada vez mais divórcios na sociedade actual, “Heartbreak Hotel” pouco tem a ver com o filme de relações. Este é mais um filme de duas mulheres quarentonas, a ginecologista Lisa (Helena Bergström) e a fiscal de estacionamento Gudrun (Maria Lundqvist), a primeira divorciada e a segunda viúva, que se vão tornar nas melhores amigas contra todas as previsões.

Lisa é uma divorciada toda para a frentex, emancipada e sem problemas em se divertir; a segunda, é uma viúva caseira, depressiva e que nunca teve um orgasmo. Semanalmente, vão-se encontrar à noite no Heartbreak Hotel, uma discoteca que é como aquele lugar que Hank Williams cantava, onde todos os que têm desgostos de amor vão, para beberem, dançarem, conhecerem homens e fazerem muitas figuras tristes e divertidas.

Apesar de no início prometer ser um simples filme de relações, “Heartbreak Hotel” rapidamente se transforma numa comédia screwball, uma espécie de “American Pie - A Primeira Vez” para quarentões. E, curiosamente, safa-se bastante bem e chega a ter muita piada. O pior vem depois…

É que depois, “Heartbreak Hotel” parece querer acertar nos clichets todos do género, ao descambar para a pieguice lamechas, espremendo o tearjerker até não poder mais. São 20/30 minutos a mais de filme. No entanto, o que era mesmo escusado era o final à “Thelma & Louise”.

Tivesse passado numa das sessões noturnas e “Heartbreak Hotel” seria o principal candidato a Prémio do Público.

Matiné de domingo numa quarta-feira à noite

07.Jun.2007

«The Treatment», terceiro filme a ser exibido na secção Independentes Americanos do Festroia, gira à volta de um triângulo escaleno: Jake Singer, um professor inseguro fora da sala de aula, que após terminar a última relação amorosa parece condenado a uma vida de mediocridade; Ernesto Morales, o psicanalista de Singer, que se auto-intitula como o último verdadeiro discípulo de Freud do planeta; Allegra Marshall, uma viúva pouco alegre, raínha da vida social que vê em Singer uma boa fisgada.

O filme tem um começo auspicioso, com diálogos sólidos, muito humor e um bom ritmo. A certa altura, como que acordando de um sonho indie, a realização decide tomar a via hollywoodesca e deixa de saber para que lado é o norte: a narrativa torna-se forçada, os clichés caem de todos os lados e os risos perdem a espontaneidade. Em vez de deixar algo por dizer, como no caminho escolhido por Linklater em «Before Sunset» e «After Sunset», dizem-se aqui demasiadas coisas, ainda para mais com pouca substância e a tocar o ridículo. A matiné de domingo, no Festroia, foi antes servida na quarta-feira à noite. Fraquinho.

Jules et Jim da era moderna

07.Jun.2007

Ao ver «Reprise», primeira longa-metragem do norueguês Joachim Trier, não pude deixar de pensar em «Jules et Jim», de François Trufaut.

Melhores amigos desde a infância, Erik e Phillip partilham a mesma paixão pelo escritor Sten Egil Dahl, que após a edição do primeiro romance se tornou num ser recluso, afastando-se da vida social e recusando prémios literários. Na sequência de abertura, ambos enviam cópias dos seus romances para a mesma editora, com resultados bem diferentes.

O filme explora a complexa relação entre a criatividade e a experiência, apresentando a escrita como uma arte preciosa que tem de ser aprendida ao longo de um turtuoso caminho, questionando amizades e relações amorosas. O final, lembrando um pouco a subversão narrativa de «Pulp Fiction», constrói uma ponte entre o real e o imaginário, permitindo que o espectador decida se há espaço para o estrelato ou, idealmente, para um novo começo.

Apesar de não conseguir colocar-se a par de toda a rebeldia e entusiasmo que pretende aplicar a cada fotograma, «Reprise» é uma bem conseguida primeira obra de Joachim Trier.

DIA 6 (a minha visão das coisas)

07.Jun.2007

A VIAGEM DE ISZKA (Seção Oficial)

A temática das crianças da rua sempre foi recorrente no Festróia (alguém mencionou “As Tartarguas Também Voam”, grande vencedor do Golfinho de Ouro em 2005?). E este ano, “A Viagem De Iszka” vem confirmar a regra.

Rodado na Hungria, “A Viagem de Iszka” tenta retirar o máximo realismo possível ao utilizar apenas verdadeiras crianças de rua, aproximando o filme quase do registo docudrama. Iszka (Mária Varga) é a personagem central, uma menina que vive na pobreza e que recolhe lixo diariamente para suportar o víceo do álcool dos pais. O quadro trágico é ainda complementado pela irmã mais nova a contas com uma grave doença.

“A Viagem De Iszka” é filmado quase na primeira pessoa, usando e abusando dos grandes planos e recorrendo aos silêncios e à sugestão, de forma a entrarmos também naquele mundo de miséria. Iszka, como todos os meninos da sua idade, tem um sonho: o de ir ve ro mar. E nós vamos embarcar nessa sua “viagem” (assim entre aspas, porque não é bem uma viagem física), que vai temrinar no submundo do tráfico humano.

Filme de curta duração, apenas com 1 hora e um quarto, “A Viagem De Iszka” ressente-se disso, uma vez que não dá espaço nem tempo ao espectador para se deixar envolver naquela rede de emoções. O realizador Csaba Bollók necessitava de ser mais ambicioso e até mais presunçoso. O filme só teria a ganhar.

Além disso, fica sempre a sensação de que muito ficou por dizer, uma vez que a linearidade temporal nunca é bem definida. O que nos faz chegar à conclusão que o principal problema de “A Viagem De Iszka” deu-se na sala de montagem. O que é pena, diga-se, porque haviam potencialidades para muito mais.

M - MATOU! (Clássicos Alemães)

Último filme do mestre Fritz Lang na sua Alemanha natal, antes de fugir para os Estados Unidos. Curiosamente, “M - Matou” lançaria as linhas mestras do cinema-noir, que nos anos seguintes iria ser uma das bandeiras de Hollywood. Para ler mais aqui.

Acabou-se a música

06.Jun.2007

«El Violin», do mexicano Francisco Vargas Quevedo, passou ontem na secção Primeiras Obras do Festroia. O filme faz um recuo temporal aos anos 70, mostrando a luta travada entre os camponeses (pela sobrevivência) e os militares (pelo poder total). Don Plutarco (Don Ángel, num registo de excelência) é um velhote com muito estilo, tocador de violino, que ganha a vida como músico viajante levando consigo o filho e o neto. Por detrás desta aparência artística, o trio fornece armas e mantimentos à guerrilha que tenta fazer frente ao regime.

Imerso numa melancolia a preto e branco e com uma fotografia assombrosa, «El Violin» mostra como muitas vezes a beleza e a arte são impotentes perante os desígnios dos deuses do ódio e da inveja. Mesmo com algumas pinceladas extras de dramatismo, o espectro da telenovela mexicana não mora aqui. Uma boa estreia do realizador Francisco Vargas nas aventuras de longa-duração.