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DIA 1 (a minha visão das coisas)

03.Jun.2007

Em 23 anos de Festróia, esta é a primeira vez em que o seu pai, Mário Ventura, não está presente, depois de nos ter deixado no ano passado. Assim, esta edição do festival não poderia arrancar sem a devida homenagem.

Foram momentos comoventes que se viveram com a exibição de um pequeno filme de tributo, enquanto uma banda de covers(?) interpretava ao vivo uma selecção de temas, cujo gosto fica ao critério de cada um. Depois, seguiram-se testemunhos emocionados de Renzo Fegatelli e Baptista Bastos. Mas como dissera o vocalista da tal banda durante a sua personificação de Freddie Mercury, o espectáculo tem que continuar.

Este ano abriu-s eo Festróia com a homenagem ao cinema de nuestros hermanos: Os Invisíveis primeiro e a ante-estreia nacional de Capitão Alatriste depois. Ao mesmo tempo, no cinema Charlot, era exibido o clássico Anjo Azul, mas como eu ainda não consigo estar em dois lados ao mesmo tempo (mas estou a tentar), tive que o deixar passar.

OS INVISÍVEIS (Homenagem a Espanha)

Costumo dizer que o filme de abertura do Festroia não reflecte a qualidade do resto do festival. Nos últimos anos a excepção que faz disto uma regra terá sido, quiçá, “Colisão”. Por isso, as expectativas que levei para “Os Invisíveis” não eram muito exigentes.

“Os Invisíveis” é uma produção espanhola financiada por Javier Bardem, fragmentada em cinco estórias com um tema em comum, cada uma assinada por um realizador diferente: histórias de gente anónima deste Mundo, vitimada pela injustiça e pilhada nos seus direitos. Assim, da Bolívia à Colômbia, passando pelo Gana, pelo Congo e pelo Uganda, Isabel Coixet, Wim Wenders, Fernando Leon de Aranoa, Mariano Barroso e Javier Corcuera realizaram cinco mini-documentários filmados totalmente em digital.

O formato do filme relembra, vagamente, “Paris Je T’Aime”, pela forma como o filme-mosaico é complementado por pequenos apontamentos comuns. E tal como este, também os segmentos de “Os Invisíveis” pouco têm de semelhante entre si.

Vamos então por ordem: o segmento de Isabel Coixet é aquele que mais tenta afastar-se do formato comum de documentário. Filmado de forma voyerista, enquanto um narrador lê as comoventes cartas de uma boliviana para a sua irmã emigrada em Espanha, Coixet mantém-se fiél ao seu cinema depurado e sóbrio, de forma a passar a mensagem social. No entanto, o breve tempo disponível e a própria liberdade digital tornam-no quase inconsequente.

Wim Wenders aborda a questão africana do Congo, onde milhares de mulheres são violadas pelos soldados, rebeldes e polícia do país, que aproveitam um vazio legal para não serem punidos. Apostando apenas nos relatos das vítimas na primeira pessoa, Wenders complementa os testemunhos com pequenos truques estilísticos, onde sobrepõe duas imagens e transforma as mulheres em fantasmas difusos: os invisíveis de que o título fala.

Quanto a Fernando Leon e Javier Corcuera, o primeiro em África e o segundo na América do Sul, limitam-se ao formato académico do documentário. Se o primeiro ainda consegue um olhar clínico e imparcial junto das crianças do Congo, raptadas constantemente pelas guerrilhas para se trasnformarem em soldados, o segundo queda-se pelas regras de cartilha, num registo próximo do de reportagem alargada de noticiário.

Por fim, Mariano Barroso é aquele que dá o passo mais em falso. De forma a mostrar a hipocrisia das grandes empresas farmacêuticas, Barroso encena uma reconstituição do que poderia ser um caso real, metade passado no Uganda, metade passado nas altas instâncias de uma farmacêutica. O resultado? Uma espécie de novela com má qualidade de imagem.

Enquanto panfleto de consciencialização social, “Os Invisíveis” é irrepreensível. No entanto, de objecto cinematográfico, exceptuando os pequenos apontamentos estilísticos de Wim Wenders, “Os Invisíveis” tem muito pouco.

CAPITÃO ALATRISTE (Ante-Estreia Nacional)

Adaptação de um dos maiores heróis do folclore literário espanhol, naquele que é o filme mais caro de sempre em Espanha, com Viggo Mortensen no principal papél (e a falar fluentemente a língua de Cervantes). Para ler aqui.

4 comentários até ao momento

Estive no Charlot a assistir ao “Anjo Azul” (eu e mais duas pessoas, pareceu-me). Apesar de já o ter visto há uns anos no Luísa Todi, quando esteve em reposição pela mão da Atalanta, achei que não devia perder esta oportunidade de rever este clássico num grande écrã.

No entanto, senti-me enganado e desiludido com a projecção do filme em DVD. Primeiro foram os enganos com os comandos do leitor e depois está mais que visto que as condições técnicas do Charlot para projectar filmes em DVD não parecem ser as melhores ou então estou a ser demasiado exigente.

Não bastaram já os problemas e a falta de qualidade no ano passado com as exibições dos filmes em DVD do Satyajit Ray e dos Western da ex-RDA?

Três pessoas, a sério? Tem a sua piada, devo confessar… :)
Não fazia a ideia de que iria ser em DVD. Isso assim é uma grande desilusão. Mesmo assim,não poderei perder o M, claro.

Pois. O problema em fazer projecções vídeo em salas de cinema é que os écrans são demasiado grandes, e os projectores tinham que ser ’state of the art’ para a imagem ter uma boa definição. No Indielisboa também existiu este problema em alguns filmes (embora tivesse assinalado no catálogo os que eram em vídeo).

No entanto penso que os ciclos do Cinema Espanhol e do Billy Wilder são em filme.

Pois. O espanhol já pude confirmar que são em filme.
Pelo que me estive a informar, os clássicos alemães foram impossíveis de arranjar em filme para estas datas. Em contrapartida, recebemos uma fantástica exposição dos cartazes originais.



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