ARMIN (Secção Oficial)
Todos os pais têm um orgulho incomensurável pelos seus filhos, sob quem depositam grandes exoectativas. A maioria leva-as mesmo ao exagero. Por vezes, não basta que o petiz se torne médico; terá mesmo que encontrar a cura para o cancro.
Ibro (Emir Hadzihafisbegovic) é um desses progenitores, que antevê para o filho Armin (Armin Omerovic), uma profícua carreira no cinema. Também, na Bósnia pós-guerra há que colocar a esperança num futuro melhor em algo, não é? Mas Armin não suporta toda aquela pressão e a insistência incomodativa e, por vezes, impertinente do pai, e isso torna-o num miúdo azedo e difícil de aturar.
“Armin” é a história da viagem que pai e filho encetam até a um hotel em Zagrev, para participarem numa audição de um filme alemão sobre o conflito nos Balcãs. E que melhor forma há para duas pessoas se conhecerem do que passarem um par de dias juntos?
Choque de gerações e drama que explora as sempre tensas relações entre pai e filho, “Armin” faz ainda lembrar Jacques Tati e o seu senhor Hulot, quando Ibro, um filho da guerra da Jugoslávia, é colocado num micro-cosmos alienado pós-modernista (o hotel), de carros de luxo, fechaduras automáticas e secadores de mãos.
As crianças começam por amar os seus pais. Passado algum tempo, julgam-nos; e, raramente, perdoam-lhes - nunca a frase de Oscar Wilde fez tanto sentido.
MENINA (Primeiras Obras)
Duas mulheres bósnias refugiadas, cada uma com os seus traumas, vão-se descobrir uma à outra e a si próprias, num filme de descoberta que se vai revelando aos poucos e poucos. Para conferir aqui.
O PORTADOR DA ESPADA (Secção Oficial)
Sasha é um tipo vingativo como a breca, com uma espada gigante que lhe sai da palma da mão, neste filme russo de acção com mais buracos no argumento do que um queijo suiço, como podem comprovar aqui.
FALSO ALARME (Secção Oficial)
Em “Colisão”, diz-se que em Los Angeles as pessoas provocam prepositadamente acidentes de viação, por sentirem falta de contacto humano. No Festróia, a realizadora Katerina Evangelakou, na apresentação do seu filme “Falso Alarme”, falou do caso oposto que acontece no seu país: na Grécia, as pessoas vivem demasiado juntas e por vezes isso causa alguns problemas.
Definitivamente, o filme-mosaico está na ordem do dia. “Falso Alarme” é mais um desses exemplos, tendo como pano de fundo as várias vidas de uma pequena e simpática praceta, onde o alarme de um carro mal estacionado teima em tocar sem razão aparente: a tentativa de Andreas (Erricos Litsis) em reconsquistar a sua mulher; as inseguranças das manas Loukia (Loukia Mihalopoulou) e Niki (Vaso Kavalieratou); ou o assalto que Nicholas (Anastasis Kolovos) e Dinos (Makis Papadimitriou) fazem à casa da velhota Irene (Irini Moraki). E pelo meio há ainda a bela Alexia Kaltsiki, uma das shooting stars que em 2005 abrilhantou a passadeira vermelha do Festival de Cinema de Setúbal.
Um dos trunfos de “Falso Alarme” é o á-vontade e o realismo dos diálogos, que faz com que o filme nunca se torne aborrecido, mesmo que as ideias não sejam sempre as mais originais. Obviamente, que a referência principal que vem à cabeça é a de Robert Altman, mas há em “Falso Alarme” muito mais de Woody Allen e dos seus diálogos caóticos.
Como é (quase) obrigatório nestes casos, o filme fecha com as estórias a convergirem todas num ponto em comum, utilizando aquela ideia de comunidade e vizinhança para enfatizar o isolamento de cada um daqueles grupos de personagens. E enquanto isso, o alarme de um carro estacionado lá fora continua a tocar…


1 comentário até ao momento
Ficam alguns apontamentos em relação aos Independentes Americanos:
«Boy Culture», de Allan Brocka
Depois de uma dose dupla de homenagem ao cinema espanhol, com filmes a puxar para a lágrima desenfreada e o mergulho na melancolia, nada melhor do que «Boy Culture», de Allan Crocka, para levantar o astral e abrir caminho para mais uma semana de Festroia.
«Boy Culture» não é um filme virado para instrospecção, onde as personagens se debatam com questões existenciais de grande monta. Muitos dos clichés associados à gay scene estão presentes, apresentados com um frenético ritmo de filmagem que lembra um «Trainspotting» só para rapazes. Porém, nessa assumida falta de seriedade e da recusa de qualquer pretensiosismo, o filme encanta pela simplicidade e pela caricatura que faz da cultura gay que afinal é, também, a cultura da heterosexualidade.
Chalk, de Mike Akel
Foi com casa cheia que o Auditório Charlot recebeu, na secção dos Independentes Americanos, o filme «Chalk» (giz), do realizador Mike Akel.
Usando o humor como arma pedagógica, Mike Akel dá-nos uma incrível visão do ensino, apresentando uma caricatura de vários tipos de professor com que nos deparámos no percurso escolar: a professora de ginástica com ar lésbico, impetuosa e agressiva, com grandes dificuldades de relacionamento devido ao seu feitio intempestuoso; o professor do terceiro ano de história, um ccompetitivo por excelência, que pede aos alunos mais espertos para reduzirem o ritmo nas aulas ou coloca outros em campanha para que seja eleito professor do ano - o verdadeiro cromo; a assistente do reitor, ex-professora, que vai deixar de ter vida própria ao mesmo tempo que se vê no papel de confessionária de professores queixosos que a tentam manipular; o professor frustrado, que está no ensino apenas porque não tem outra coisa para fazer; o professor estreante e humilde, que vai mudando a sua forma de ensinar de acordo com o estado de espírito dos alunos, promovendo uma relação de troca de experiências.
Com uma realização que recorda o estilo documental da série The Office, Akel consegue transmitir, com muito humor à mistura, todos os medos, triunfos, frustrações, alegrias e dúvidas que passam pela cabeça de um professor - seja na relação com alunos, outros professores ou com quem dirige a escola -, desde o momento em que é lançado às feras até se tornar parte do quadro de uma instituição de ensino. Divertido e intensamente profundo, «Chalk» é uma fabulosa ode à nobre arte de ensinar. Um verdadeiro must see que já deve ter um Golfinho garantido.
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