Festroiablog.com

Cinema em Moçambique

14.Jun.2005

Num festival de cinema, regra geral, a abundância da oferta impede os espectadores de terem acesso a tudo o que de interessante se realiza. Talvez por isso, foi reduzida a assistência à mesa redonda em que estiveram presentes os cineastas moçambicanos Horácio Comé e Karl de Sousa. Por eles ficámos a conhecer as condições inimagináveis em que se faz cinema em Moçambique, assim como a quase impossibilidade de levarem as suas produções até ao grande público. Existem apenas cinco ou seis salas, propriedade da Lusomundo, preenchidas com os sub-produtos do cinema americano, e as restantes, quase todas propriedade de paquistaneses, só exibem filmes indianos. Para os cineastas moçambicanos, que fazem filmes sobre o seu país - ficação e documental -, fica apenas uma sala no Maputo, e os espaços improvisados nos pequenos centros populacionais aonde se deslocam. O estímulo que lhes permite continuar, apesar de todas as limitações, vão buscá-lo aos festivais de cinema, sobretudo na Europa e no Brasil, onde a qualidade técnica e humana das suas obras, estão a ser devidamente apreciadas.

De Portugal não recebem apoio, embora o desejem. Criticam a RTP África por passar conteúdos que pouco ou nada interessam aos moçambicanos. Em vez de recorrerem à criatividade local, preferem transmitir por exemplo as Lições do Tonecas, numa total inconsciência pelo que são as necessidades culturais e interesses próprios da população local. A única proposta que receberam nesse sentido, estipulava um pagamento de cem dolares - por parte da RTP - por cada dez minutos de filme produzido localmente. Consideraram a oferta uma forma de exploração abusiva. Entretanto, recebem alguns apoios do ministério da Cooperação francês e da África do Sul. Sente-se, aliás, que culturalmente vão estando cada vez mais distanciados de Portugal…

Os premiados da 21ª edição

06.Jun.2005

Golfinho de Ouro - Melhor Filme
Vencedor - Sempre Se Pode Voar, de Bahman Ghobadi (Curdistão/Iraque/Irão).

Golfinho de Prata - Prémio Especial do Júri
Vencedor - Machuca, de Andrés Wood (Chile)

Golfinho de Prata - Melhor Realizador
Vencedor - Erik Poppe, por Havaí, Oslo (Noruega)

Golfinho de Prata - Melhor Actriz
Vencedora - Dorka Gryllus, por Dallas (Hungria/Áustria)

Golfinho de Prata - Melhor Actor
Vencedor - Mikael Persbrandt, por Dia e Noite (Suécia/Dinamarca)

Golfinho de Prata - Melhor Argumento
Vencedor - Carlos Sorin, Santiago Calori e Salvador Rosselli, por Bombom (Chile)

Golfinho de Prata - Melhor Fotografia
Vencedor - Andrezej Szulkowski, por A Boda (Polónia)

Prémio do Público
Vencedor - A Boda, de Wojtek Smarzowski (Polónia)

Prémio O Homem e a Natureza
Vencedor - Para lá do Arame, de Pau Vergara (Espanha)
Menção Especial - À Espera da Chuva, de Holger Ernst (Alemanha)
Menção Especial - Beco Sem Saída, de Leon Produvsky (Israel)

Prémio Câmara Municipal de Setúbal / Independentes Americanos
Vencedor - Águas Turbulentas, de Doug Sadler
Menção Especial - Um Homem de Sonho, de Hal Salwen

Prémio Primeiras Obras
Vencedor - Terra e Cinzas, de Atiq Rahimi (Afeganistão)
Menção Especial - Camião Vermelho Cinzento, de Srdjan Koljevic (Sérvia/Eslovénia/Alemanha)

Prémio FIPRESCI
Vencedor - Sempre Se Pode Voar, de Bahman Ghobadi (Curdistão/Iraque/Irão)

Prémio SIGNIS
Vencedor - Bombom, de Carlos Sorin (Argentina)
Menção Especial - Havaí, Oslo, de Erik Poppe (Noruega)

Sorin contra-ataca

02.Jun.2005

Depois de Histórias Minimas ter ganho o Golfinho de Ouro em 2003, carlos Sorin apresenta a competição Bombom - El Perro. De novo na Patagónia, o herói desta história, um mecânico descobre que a sua condição de desempregado o pode levar a conhecer muita gente nova, um cão e com este um novo pequeno mundo: o das mostras e competições caninas.

Numa altura em que o assunto dos cães perigosos é tema de polémica e de nova legislação em Portugal, o trama do filme não deixa de ser interessante.

A bancarrota que se fez sentir na Argentina não passa despercebida mas também não é exagerada. Não há personagem que não se queixe de falta de plata, mas à parte disso o filme tem um tom muito descontraído.

Dá ideia de ser uma história interminável, aliás, o filme, na minha modesta opinião não tem propriamente um fim.

A espontaneidade e ar bonacheirão de Villegas, a personagem central, dá ao filme uma grande qualidade. Tudo parece real mas não sai do regime ficcional e não imita documentário de câmara solta como em Trier.

Sem dúvida, um bom filme. Mas o júri é diferente e a festa de 2003 pode não se repetir…

Schechter: arma de crítica maciça

02.Jun.2005

O filme Weapons of Mass Deception do independente americano Danny Schechter é um convite para termos um olhar crítico acerca dos aglomerados de comunicação social dos Estados Unidos da América na cobertura da guerra do Iraque. As guerras de acordo com este documentário são também travadas pelos meios de comunicação social (m.c.s.) e a guerra do Iraque é um círculo vicioso: os meios alimentaram a guerra e esta alimentou os meios. A montagem do filme é moldada pelo prisma da conspiração: a grande maioria das citações são escolhidas por conterem as falhas da campanha de (des)informação do Pentágono e da administração Bush.

As ideias principais são:
1. os meios são manipulados por interesses económicos,
2. subornaram Saddam para que este conceda vistos de entrada aos jornalistas
3. muitos jornalistas são aventureiros e querem ser heróis, querem ter guerra no currículo.
4. existem 5 guerras: 1ª a real (ar, terra,mar), 2ª a vista pelos m.c.s. da Europa 3ª a vista pelos m.c.s. dos países árabes, 4ª a vista pelos m.c.s. dos EUA e a 5ª a vista pelos m.c.s. do Resto do Mundo. E todas são diferentes, não existem versões coincidentes, um mesmo episódio é relatado de formas diversas conforme o sítio de onde é noticiada.

Face a este filme é difícil ficarmos indiferentes. A atitude do realizador/relator/analista afirma-se crítica. Mas é difícil escapar ao maniqueísmo do jornalismo de verdade versus pseudo-jornalismo praticado na Guerra do Iraque. A procura pela verdade torna-se obssessiva e nem sempre rigorosa.

Ficamos com duas opções. Ou caímos num delírio paranóide e intimidatório (por exemplo, acreditamos que a morte do jornalista da Reuters pelo canhão dos americanos foi um acto propositado da administração americana, para intimidar jornalistas independentes) ou aceitamos as desculpas de maus jornalistas que afirmam ter feito o seu melhor com o escasso material de que dispunham…

O meio termo é o de que há boas coberturas e más coberturas dos acontecimentos, mas não é um meio termo muito satisfatório.

É por isso que trabalhos sobre a manipulação e influência dos m.c.s. e da sua agenda no opinion making e na legitimação de decisões políticas são importantes. Ou o filme dá uma visão distorcida e enviesada da realidade ou a realidade que nos entrou em casa pelas televisões é que foi fortemente condicionada. E essa é uma escolha que ninguém tem meios para fazer de forma ajuizada, embora haja a meu ver alguns factos que são indesmentíveis: o 11 de setembro reforçou o nacionalismo e coesão tipicamente americanos e incentivou a doutrinazação libertadora do Iraque. Ainda que para isso os tipos tenham de ter comido umas bombas.

Agora não nos podemos esquecer é que esta verdade de Schechter também é vinculada por um m.c.s., também ele sujeito a manipulação e também ele com a capacidade de aumentar as falhas exageradamente: efeito de lupa…

É verdade que análises de conteúdo independentes provaram que uma larga maioria (mais de 95%) dos artigos de opinião, editoriais e notícias do pós 11 de Setembro eram pró-guerra. Portanto as alternativas à guerra foram abafadas da discussão pública. E como dizia um professor meu, quando não há alternativas há totalitarismo!

Mas também é verdade que este documento dá muito peso e espaço às opiniões alternativas no meio jornalístico, às organizações e televisões independentes de fraca expressão e defensoras do jornalismo de verdade, aos conteúdos de internet anti-Bush e às citações constragedoras retiradas de fontes oficiais mas fora do contexto em que foram proferidas.

Ponderando tudo isto, podemos afirmar que este documentário não pode deixar de ser uma arma de crítica maciça ao newsmaking americano e consequentemente ao produto noticioso de baixa qualidade que os americanos consomem diaria e credulamente sem terem escudos de protecção…

Os bastidores do festival

31.Mai.2005

Por me parecer pertinente, recuperei dos comentários este texto em que Mário Ventura explica como se organiza cada edição do Festroia.

Em rigor, um festival como o Festroia demora um ano a realizar. Primeiro planifica-se, depois estudam-se as possibilidades de execução, e finalmente iniciam-se os contactos. É então que se começam a visionar os filmes candidatos ao festival (nunca menos de 300).
Por estranho que pareça, tudo isto é feito por três pessoas - exceptuando o período do Festival, em que o número sobe para 50. No estrangeiro, há festivais que empregam centenas de pessoas ao longo de todo o ano (Berlim, Cannes, etc). Mas também é preciso dizer que existem muitos festivais, com poucas preocupações de qualidade, que se organizam em menos de três meses. Para nós, não contam.
O Festroia tem duas formas de difusão: pela internet, e por intermédio da FIAPF, a organização que promove apenas 45 festivais em todo o mundo. É esta difusão que nos faz chegar, ao longo do ano, centenas de filmes, para serem apreciados, e eventualmente seleccionados. A esmagadora maioria, porém, não é aceite. O comité de selecção, constituido pela Direcção do Festroia e colaboradores estrangeiros, visiona ainda muitas dezenas de filmes nos festivais mais importantes.
O inglês é o idioma de contacto privilegiado. Aliás, de forma abusiva, porque às vezes surpreendemo-nos a usar o inglês nos contactos com o Brasil, por exemplo… Nunca inventariámos os contactos, mas são sem dúvida muitos milhares. E, como é natural, o fax está a perder terreno para o e-mail. Há 21 anos, quando começámos, fazia-se tudo por carta e tínhamos de esperar semanas por uma resposta. Sinais dos tempos…

O jornal

28.Mai.2005

Começou hoje o Festroia! Com o Forum Luísa Todi cheio, todos puderam ver as ‘Shooting Stars’ estrangeiras (Marisa Cruz faltou…) e os primeiros filmes.

Também disponível esteve o número 1 do “Festroia XXI”, jornal diário desta 21ª edição do certame. Na capa desta edição, pela primeira vez com oito páginas, estiveram em destaque os novos talentos do cinema europeu, os júris, os filmes da noite e as fitas do dia seguinte. Além, claro, de uma referência ao festroiablog.com!
Quem não tiver conseguido um exemplar da versão em papel do jornal (esgotou!), pode solicitar o PDF para luis@festroiablog.com (atenção: o ficheiro pesa mais de 6MB).

Tudo (o que ainda não sei) sobre o Festroia

26.Mai.2005

Penso que muitas pessoas terão - à semelhança do que sucede comigo - interesse em saber como se organiza um festival de cinema. Todos ouvimos falar dos certames cinematográficos estrangeiros, como Berlim, Cannes e alguns da América Latina, bem como dos nacionais Fantasporto, Festival de Curtas de Vila do Conde ou do Festroia, mas… o que está por detrás dos festivais?

No caso do Festroia, por exemplo, gostava de saber quanto tempo demora a organizar o certame, quantas pessoas trabalham para o pôr de pé e, sobretudo, como e onde são escolhidos os filmes participantes.

E até tenho curiosidade por aqueles detalhes mais elementares, do género: como sabem os organizadores quem devem contactar? Quantos contactos (telefonemas, faxes, e-mails) estão, em média, na base de cada Festroia? Há um idioma oficial para se entenderem (presumo que seja o inglês, mas…)?

O plano mágico

25.Mai.2005

Desde que me apaixonei pelo cinema - tinha 12 anos de idade e foi a ver aquela obra-prima de Howard Hawks a que chamaram Rio Bravo (e que sorte estrear-me assim) - que houve imensos planos e momentos que me apaixonaram de imediato. Com o passar dos anos fui aprendendo que afinal aquilo não era tão mágico como parecia à primeira vista. Mas houve um que se manteve imutável na minha mente desde a primeira vez que o vi.
Quando a camara se aproxima daqueles olhos azuis, depois do imenso contraste que a sua figura, branca e infima, se afundava na imensidão do deserto de areia, e ouvimos - ou lemos naqueles lábios tão marcantes - a mitica frase “Aqaba…from the land“, sabemos que estamos num filme de David Lean. Um filme com Peter O´Toole. Um filme chamado Lawrence of Arabia. Um filme inadjectivável!

Fazer cinema!

25.Mai.2005

Fazer cinema.
Quando se fala de cinema, fala-se em ver cinema. Em sentir cinema. Em analisar cinema. Em comentar cinema. Mas, e fazer cinema?
Parecendo que não - e falo não pelos inumeros making off que já vi, mas por experiência própria - mas fazer cinema é das coisas mais exaustivas e gratificantes que existem. A questão é que a gratificação só surge no final, após um imenso trabalho técnico, de campo, de coordenação, e, acima de tudo, de imenso sacrificio. E essa gratificação funciona como algo incompleto na maior parte das vezes. Nem sempre aquela cena fica como desejamos. Aquele plano saiu de campo. O actor enganou-se na entoação a dar àquela frase. Há sempre algo que falha, sempre algo que nos desanima. Por isso, quando somos criticos com os filmes que vemos, temos de ter também a noção do que se passa no outro lado. Das dificuldades do argumentista em criar uma história real, credivel, apaixonante. Dos problemas do realizador em filmar a sequência do ponto de vista certo para aquele momento. E do editor, esse trabalhador quase solitário, mas fundamental na transformação da ideia do argumentista, do sentimento do realizador, no resultado final que o público vai encontrar. Por isso ás vezes, quando se pensa em cinema, e se fala em cinema, convém também pensar em como se faz cinema. E o mérito de quem o faz, que é tremendo!

Contagem decrescente

25.Mai.2005

Depois de passados os dias necessários para se fazer o balanço de Cannes (e seria interessante que alguém que tenha acompanhado de perto o festival desse conta dos principais destaques deste ano aqui), as atenções dos cinéfilos começam a concentrar-se na contagem decrescente para o Festroia.O primeiro dia é já neste sábado, e terá como pratos fortes a apresentação dos Shooting Stars e a ante-estreia de Crash, um filme de Paul Haggis (argumentista de Million Dollar Baby) com Sandra Bullock, Matt Dillon, Don Cheadle, Brendan Fraser e muitos outros.

À mesma hora que Crash, passará no Charlot o filme italiano Certi Bambini, enquanto à meia-noite a escolha poderá ser feita entre Emboscada, filme finlandês que venceu o Festroia em 2000, e Banlieue 13, um filme de acção/ficção científica francês, cujo guião foi parcialmente escrito por Luc Besson.