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Asfixia no novo mundo

09.Jun.2007

 

Nos Independentes Americanos, o melhor ficou reservado para o fim. «Choking Man», do realizador Steve Barron, é um mergulho na vida de um emigrante equatoriano em Nova Iorque, para quem a vida se tornou num imenso vazio.

Jorge passa a vida enfiado num lavatório, olhando pratos e um cartaz descolorado que explica como agir em caso de asfixia. A chegada ao restaurante de uma jovem chinesa desperta algo novo em Jorge, mas o fosso que existe entre ambos parece demasiado fundo e extenso para poder ser vencido. Nessa luta de aproximação, o lado negro de Jorge vai ganhando cada vez mais força, obrigando-o a um terrível confronto com ele próprio em nome da liberdade.

O filme captura a claustrofobia e o sentimento de asfixia que os recém-chegados aos Estados Unidos sentem, à medida que lutam por encontrar um significado para a vida numa cidade estranha. Recusando qualquer embelezamento, o filme faz poesia com imagens sujas e cruas, deixando que seja o silêncio o narrador. Há muito tempo que não saía de um cinema verdadeiramente tocado. Um triunfo do cinema indie que merece levar para casa o Golfinho dos Independentes Americanos.

USA for sale

08.Jun.2007

«Iraq For Sale», que passou no Festroia integrado na secção Panorama, é o que se pode chamar de cinema de intervenção. O documentário centra-se na esfera económica do conflito, deixando de lado a legalidade ou não da intervenção.

Doseando o lado sentimental e apontando baterias para questões de facto, «Iraq For Sale» desconstrói o conflito apresentando os verdadeiros ganhadores: empresas privadas, suportadas por um escandaloso lobby governamental, que celebram contratos multimilionários com o estado onde nem sequer cumprem os serviços mínimos. No final, fica a ideia de que também os Estados Unidos estão à venda. Um documentário obrigatório.

DIA 7 (a minha visão das coisas)

08.Jun.2007

MOMENTOS AGRADÁVEIS (Secção Oficial)

A depressão é, sem dúvida, a doença-rainha urbana da sociedade contemporânea. E a psicanálise tornou-se numa terapia quase obrigatória nas grandes metrópoles do Ocidente civilizado. Por isso, pela importância que tem, não tem sido uma temática estranha no cinema, em filmes como “Uma Questão De Nervos”, “Melhor É Impossível”, ou mesmo na televisão, com o célebre “Frasier”.

“Momentos Agradáveis” debruça-se sobre este tema, mas coloca a questão ao contrário: e os próprios psicólogos, quem é que os trata? Analisam-se a eles próprios ou vão a outros psicólogos? Ou será que estão imunes às depressões?

Temos então como figura central o consultório da psicóloga Hana (Jana Janeková), onde vão parar um sem-número de estórias fellinianas, desde tarados sexuais a vítimas de violência doméstica, passando pelos simples lunáticos. No entanto, estes episódios vão-se reflectir na própria vida de Hana, que não consegue pôr em prática na sua vida familiar os conselhos que dá aos seus pacientes.

Espécie de filme-mosaico, “Momentos Agradáveis” é filmado com câmra ao ombro e (aparentemente) com luz natural, provando que o Dogma nunca morrerá. No entanto, a forma algo caótica de como as estórias se vão cruzando e a tremideira exasperante da câmara não é a ideal para um filme que se queria sério.

“Momentos Agradáveis” assemelha-se a uma sessão de psicanálise com o próprio Fellini.

VIÚVA RICA SOLTEIRA NÃO FICA (Cinema Português do Ano)

Filme de época, crónica de costumes e tragédia à portuguesa. O costume no nosso cinema, mais mais bem feito do que é costume. Para conferir aqui.

POSTO FRONTEIRIÇO (Secção Oficial)

Eis o meu favorito à conquista do Golfinho de Ouro.

HEARTBREAK HOTEL (Secção Oficial) 

Apesar do título, “Heartbreak Hotel” não é nenhum dos rock-and-roll-movies de Elvis Presley. É antes uma comédia de sucesso sueca, com a famosa (e bonita) Helena Bergström, a tal actriz que em 1995 foi considerada a melhor do século na Suécia e que, afinal, veio-se a descobrir pouco depois que tudo não tinha passado de um erro informático.

Apesar de partir da premissa de que há cada vez mais divórcios na sociedade actual, “Heartbreak Hotel” pouco tem a ver com o filme de relações. Este é mais um filme de duas mulheres quarentonas, a ginecologista Lisa (Helena Bergström) e a fiscal de estacionamento Gudrun (Maria Lundqvist), a primeira divorciada e a segunda viúva, que se vão tornar nas melhores amigas contra todas as previsões.

Lisa é uma divorciada toda para a frentex, emancipada e sem problemas em se divertir; a segunda, é uma viúva caseira, depressiva e que nunca teve um orgasmo. Semanalmente, vão-se encontrar à noite no Heartbreak Hotel, uma discoteca que é como aquele lugar que Hank Williams cantava, onde todos os que têm desgostos de amor vão, para beberem, dançarem, conhecerem homens e fazerem muitas figuras tristes e divertidas.

Apesar de no início prometer ser um simples filme de relações, “Heartbreak Hotel” rapidamente se transforma numa comédia screwball, uma espécie de “American Pie - A Primeira Vez” para quarentões. E, curiosamente, safa-se bastante bem e chega a ter muita piada. O pior vem depois…

É que depois, “Heartbreak Hotel” parece querer acertar nos clichets todos do género, ao descambar para a pieguice lamechas, espremendo o tearjerker até não poder mais. São 20/30 minutos a mais de filme. No entanto, o que era mesmo escusado era o final à “Thelma & Louise”.

Tivesse passado numa das sessões noturnas e “Heartbreak Hotel” seria o principal candidato a Prémio do Público.

Jules et Jim da era moderna

07.Jun.2007

Ao ver «Reprise», primeira longa-metragem do norueguês Joachim Trier, não pude deixar de pensar em «Jules et Jim», de François Trufaut.

Melhores amigos desde a infância, Erik e Phillip partilham a mesma paixão pelo escritor Sten Egil Dahl, que após a edição do primeiro romance se tornou num ser recluso, afastando-se da vida social e recusando prémios literários. Na sequência de abertura, ambos enviam cópias dos seus romances para a mesma editora, com resultados bem diferentes.

O filme explora a complexa relação entre a criatividade e a experiência, apresentando a escrita como uma arte preciosa que tem de ser aprendida ao longo de um turtuoso caminho, questionando amizades e relações amorosas. O final, lembrando um pouco a subversão narrativa de «Pulp Fiction», constrói uma ponte entre o real e o imaginário, permitindo que o espectador decida se há espaço para o estrelato ou, idealmente, para um novo começo.

Apesar de não conseguir colocar-se a par de toda a rebeldia e entusiasmo que pretende aplicar a cada fotograma, «Reprise» é uma bem conseguida primeira obra de Joachim Trier.

DIA 6 (a minha visão das coisas)

07.Jun.2007

A VIAGEM DE ISZKA (Seção Oficial)

A temática das crianças da rua sempre foi recorrente no Festróia (alguém mencionou “As Tartarguas Também Voam”, grande vencedor do Golfinho de Ouro em 2005?). E este ano, “A Viagem De Iszka” vem confirmar a regra.

Rodado na Hungria, “A Viagem de Iszka” tenta retirar o máximo realismo possível ao utilizar apenas verdadeiras crianças de rua, aproximando o filme quase do registo docudrama. Iszka (Mária Varga) é a personagem central, uma menina que vive na pobreza e que recolhe lixo diariamente para suportar o víceo do álcool dos pais. O quadro trágico é ainda complementado pela irmã mais nova a contas com uma grave doença.

“A Viagem De Iszka” é filmado quase na primeira pessoa, usando e abusando dos grandes planos e recorrendo aos silêncios e à sugestão, de forma a entrarmos também naquele mundo de miséria. Iszka, como todos os meninos da sua idade, tem um sonho: o de ir ve ro mar. E nós vamos embarcar nessa sua “viagem” (assim entre aspas, porque não é bem uma viagem física), que vai temrinar no submundo do tráfico humano.

Filme de curta duração, apenas com 1 hora e um quarto, “A Viagem De Iszka” ressente-se disso, uma vez que não dá espaço nem tempo ao espectador para se deixar envolver naquela rede de emoções. O realizador Csaba Bollók necessitava de ser mais ambicioso e até mais presunçoso. O filme só teria a ganhar.

Além disso, fica sempre a sensação de que muito ficou por dizer, uma vez que a linearidade temporal nunca é bem definida. O que nos faz chegar à conclusão que o principal problema de “A Viagem De Iszka” deu-se na sala de montagem. O que é pena, diga-se, porque haviam potencialidades para muito mais.

M - MATOU! (Clássicos Alemães)

Último filme do mestre Fritz Lang na sua Alemanha natal, antes de fugir para os Estados Unidos. Curiosamente, “M - Matou” lançaria as linhas mestras do cinema-noir, que nos anos seguintes iria ser uma das bandeiras de Hollywood. Para ler mais aqui.

Acabou-se a música

06.Jun.2007

«El Violin», do mexicano Francisco Vargas Quevedo, passou ontem na secção Primeiras Obras do Festroia. O filme faz um recuo temporal aos anos 70, mostrando a luta travada entre os camponeses (pela sobrevivência) e os militares (pelo poder total). Don Plutarco (Don Ángel, num registo de excelência) é um velhote com muito estilo, tocador de violino, que ganha a vida como músico viajante levando consigo o filho e o neto. Por detrás desta aparência artística, o trio fornece armas e mantimentos à guerrilha que tenta fazer frente ao regime.

Imerso numa melancolia a preto e branco e com uma fotografia assombrosa, «El Violin» mostra como muitas vezes a beleza e a arte são impotentes perante os desígnios dos deuses do ódio e da inveja. Mesmo com algumas pinceladas extras de dramatismo, o espectro da telenovela mexicana não mora aqui. Uma boa estreia do realizador Francisco Vargas nas aventuras de longa-duração.

Um giz de todas as cores

05.Jun.2007

Foi com casa cheia que o Auditório Charlot recebeu, na secção dos Independentes Americanos, o filme «Chalk» (giz), do realizador Mike Akel.

Usando o humor como arma pedagógica, Mike Akel dá-nos uma incrível visão do ensino, apresentando uma caricatura de vários tipos de professor com que nos deparámos no percurso escolar: a professora de ginástica com ar lésbico, impetuosa e agressiva, com grandes dificuldades de relacionamento devido ao seu feitio intempestuoso; o professor do terceiro ano de história, um competitivo por excelência, que pede aos alunos mais espertos para reduzirem o ritmo nas aulas ou coloca outros em campanha para que seja eleito professor do ano - o verdadeiro cromo; a assistente do reitor, ex-professora, que vai deixar de ter vida própria ao mesmo tempo que se vê no papel de confessionária de professores queixosos que a tentam manipular; o professor frustrado, que está no ensino apenas porque não tem outra coisa para fazer; o professor estreante e humilde, que vai mudando a sua forma de ensinar de acordo com o estado de espírito dos alunos, promovendo uma relação de troca de experiências.

Com uma realização que recorda o estilo documental da série The Office, Akel consegue transmitir, com muito humor à mistura, todos os medos, triunfos, frustrações, alegrias e dúvidas que passam pela cabeça de um professor - seja na relação com alunos, outros professores ou com quem dirige a escola -, desde o momento em que é lançado às feras até se tornar parte do quadro de uma instituição de ensino. Divertido e intensamente profundo, «Chalk» é uma fabulosa ode à nobre arte de ensinar. Um verdadeiro must see que já deve ter um Golfinho garantido.

Trainspotting para rapazes

05.Jun.2007

 

Depois de uma dose dupla de homenagem ao cinema espanhol, com filmes a puxar para a lágrima desenfreada e o mergulho na melancolia, nada melhor do que «Boy Culture», de Allan Brocka, para levantar o astral e abrir caminho para mais uma semana de Festroia.

«Boy Culture» não é um filme virado para instrospecção, onde as personagens se debatam com questões existenciais de grande monta. Muitos dos clichés associados à gay scene estão presentes, apresentados com um frenético ritmo de filmagem que lembra um «Trainspotting» só para rapazes. Porém, nessa assumida falta de seriedade e da recusa de qualquer pretensiosismo, o filme encanta pela simplicidade e pela caricatura que faz da cultura gay que afinal é, também, a cultura da heterosexualidade.

O primeiro filme de zombies português

22.Mai.2007

Os mais atentos já o conheciam do mundo da música, mas Filipe Melo saltou para as luzes da ribalta quando, em 2001, foi o criador e o produtor do “primeiro (e único até há data, que eu saiba) filme de zombies português”. Falo obivamente de “I’ll See You In My Dreams”.

Filipe Melo juntou um elenco de luxo - Manuel João Vieira, Sofia Aparício, João Didelet, São José Correia e, especialmente, Adelino Tavares -, uma banda de prestígio internacional - os Moonspell -, uma companhia de efeitos-especiais conceituada - a SFX - e capital luso-espanhol, e assinou um filme de terror português, provando que em Portugal também é possível fazer cinema independente.

O filme arrecadou prémios por váiros festivais internacionais - 12 ao todo, incluindo o “nosso” Fantasporto - e tornou-se num caso de sucesso. E o que ganhou Filipe Melo com isso? Segundo o próprio, apenas dores de cabeça, porque o cinema em Portugal só dá de comer a meia-dúzia de cabeças. E são sempre as do costume… No entanto, Filipe Melo pode-se orgulhar de ter realizado um dos seus sonhos. O que é mais do que a maioria das pessoas se podem gabar.

Com isto, Filipe Melo criou a sua própria produtora, a Pato Profissional Produções, com a qual se prepara para se envolver noutro projecto arriscado: a do primeiro filme de monstros português. Uma espécie de homenagem a filmes como “As Aventuras de Jack Burton nas Garras do Mandarim”, com Nicolau Breyner no principal papél. A história parte da premissa de que, durante a Segunda Guerra Mundial, o Terceiro Reich aprisionou todos os montros do Mundo - o lobisomem, o abominável homem das neves, o frankenstein… - em Portugal. Ao que consta, a coisa até vai bem encaminhada e tem bastante bom aspecto. E pode ser acompanhada neste site.

E isto para dizer o quê? Para publicitar de forma escandalosa a vinda do grande Filipe Melo ao Clube de Cinema de Setúbal, já na próxima sexta-feira, dia 25 de Maio, onde irá apresentar “I’ll See You In My Dreams” e responder às questões do exigente público. E logo a seguir haverá ainda a projecção de “Dellamorte Dellamore”, aquele que é, segundo Martin Scorcese, o melhor filme dos anos 90.

No sábado seguinte, David Rebordão virá apresentar a sua “A Curva”. Mas isto é assunto para outro post.

David Lynch

14.Mai.2007

Certa vez, alguém descreveu “Mulholland Drive” como uma experiência de David Lynch onde ele partiu o tubo de ensaio. Em “INLAND EMPIRE”, Lynch atirou o material do laboratório todo pela janela.

 
Os admiradores de David Lynch dividem-se em três grupos, que eu irei passar a enunciar:

a) o primeiro grupo engloba todos os resignados, que vão para a sala de cinema conformados com o facto de que não vão perceber nada do filme. Vão apenas para disfrutar sensorialmente do filme. Acreditam que David Lynch gosta de fazer filmes esquisitos apenas para serem esquisitos. Não gosto desta atitude derrotista e, por isso, é o grupo com o qual menos me identifico;

b) o segundo grupo abraça todos aqueles que vão para a sala de cinema em pulgas, adivinhando que dali vai sair o seu próximo filme favorito. Sabem que Lynch é um génio subversivo e que se esforçam em criar um sentido para o filme, elaborando teorias mirabolantes, incluindo inclusive elementos que nem sequer aparecem no ecrã. Elaboram ideias com piratas, duendes verdes e outras situações esquisitas. Simpatizo com este grupo pela sua capacidade romântica de interpretar David Lynch, mas também não me insiroo nele;

c) por fim, o terceiro e último grupo, é o grupo dos admiradores pragmáticos, aqueles que acreditam piamente que David Lynch não é um tipo assim tão esquisito quanto aparenta ser. Se fosse, talvez não tivesse uma vida social como a dele, não é verdade? Estes admiradores são aqueles que acreditam que todos os filmes de Lynch têm uma explicação razoável, um fio condutor convencional, que depois o realizador subverte, distorce e amanha segundo as suas perversões.

É neste terceiro grupo em que me incluo e, talvez por isso, explique porque tenha achado “INLAND EMPIRE” um filme relativamente simples no que diz respeito ao seu fio condutor. Claro que devo estar errado, mas comparado com “Mulholland Drive” ou “Lost Highway”, por exemplo, este fez-me muito mais sentido.