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DIA 5 (a minha visão das coisas)

06.Jun.2007

JUVENTUDE TARDIA (Secção Oficial)

Se me perguntarem o que eu gostaria de fazer se chegar aos 70 anos, a minha resposta será, concerteza, conseguir ir à casa-de-banho sozinho. No entanto, para Stephanie Glaser e Monica Gubser, as duas actrizes septagenárias que subiram ao palco para apresentarem “Juventude Tardia”, esta deve ser a menor das suas preocupações. Que agradável é ver tamanha lucidez e vivacidade em pessoas com tantas primaveras de vida.

“Juventude Tardia” é um filme que aborda de frente essa vontade viver; um filme para toda a família, que promove os valores morais e passa a mensagem de que nunca é tarde para perseguirmos os nossos sonhos. Sejam eles quais forem. Tivesse sido realizado nos Estados Unidos e “Juventude Tardia” teria, certamente, o selo da Disney.

Martha (Stephanie Glaser) ficou viúva. As amigas dizem que tem que seguir a sua vida, para não se ir abaixo. E a cowgirl Lisi (Heidi Maria Glössner) desafia-a mesmo a abraçar o seu sonho de longa data: abrir uma loja de lingerie. No entanto, Martha terá que enfrentar os olhares acusadores e desrespeitosos da conservadora comunidade da sua aldeia perdida no interior da Suiça, nomeadamente o padre (Hanspeter Müller) e o presidente da câmara (Peter Wyssbrod).

“Juventude Tardia” é uma espécie de “Thelma E Louise” da terceira idade, um filme de bom coração, que nos faz rir e chorar. Sem dúvida que daria uma excelente sessão domingueira nas tardes de um qualquer canal da nossa televisão pública.

CIDADE FRIA (Secção Oficial)

Um tributo subtil a “Taxi Driver”, numa versão mais… realista, digamos assim. Para perceber o que quero dizer, clique aqui.

Um giz de todas as cores

05.Jun.2007

Foi com casa cheia que o Auditório Charlot recebeu, na secção dos Independentes Americanos, o filme «Chalk» (giz), do realizador Mike Akel.

Usando o humor como arma pedagógica, Mike Akel dá-nos uma incrível visão do ensino, apresentando uma caricatura de vários tipos de professor com que nos deparámos no percurso escolar: a professora de ginástica com ar lésbico, impetuosa e agressiva, com grandes dificuldades de relacionamento devido ao seu feitio intempestuoso; o professor do terceiro ano de história, um competitivo por excelência, que pede aos alunos mais espertos para reduzirem o ritmo nas aulas ou coloca outros em campanha para que seja eleito professor do ano - o verdadeiro cromo; a assistente do reitor, ex-professora, que vai deixar de ter vida própria ao mesmo tempo que se vê no papel de confessionária de professores queixosos que a tentam manipular; o professor frustrado, que está no ensino apenas porque não tem outra coisa para fazer; o professor estreante e humilde, que vai mudando a sua forma de ensinar de acordo com o estado de espírito dos alunos, promovendo uma relação de troca de experiências.

Com uma realização que recorda o estilo documental da série The Office, Akel consegue transmitir, com muito humor à mistura, todos os medos, triunfos, frustrações, alegrias e dúvidas que passam pela cabeça de um professor - seja na relação com alunos, outros professores ou com quem dirige a escola -, desde o momento em que é lançado às feras até se tornar parte do quadro de uma instituição de ensino. Divertido e intensamente profundo, «Chalk» é uma fabulosa ode à nobre arte de ensinar. Um verdadeiro must see que já deve ter um Golfinho garantido.

Trainspotting para rapazes

05.Jun.2007

 

Depois de uma dose dupla de homenagem ao cinema espanhol, com filmes a puxar para a lágrima desenfreada e o mergulho na melancolia, nada melhor do que «Boy Culture», de Allan Brocka, para levantar o astral e abrir caminho para mais uma semana de Festroia.

«Boy Culture» não é um filme virado para instrospecção, onde as personagens se debatam com questões existenciais de grande monta. Muitos dos clichés associados à gay scene estão presentes, apresentados com um frenético ritmo de filmagem que lembra um «Trainspotting» só para rapazes. Porém, nessa assumida falta de seriedade e da recusa de qualquer pretensiosismo, o filme encanta pela simplicidade e pela caricatura que faz da cultura gay que afinal é, também, a cultura da heterosexualidade.

Ele já chegou

05.Jun.2007

DIA 4 (a minha visão das coisas)

05.Jun.2007

ARMIN (Secção Oficial)

Todos os pais têm um orgulho incomensurável pelos seus filhos, sob quem depositam grandes exoectativas. A maioria leva-as mesmo ao exagero. Por vezes, não basta que o petiz se torne médico; terá mesmo que encontrar a cura para o cancro.

Ibro (Emir Hadzihafisbegovic) é um desses progenitores, que antevê para o filho Armin (Armin Omerovic), uma profícua carreira no cinema. Também, na Bósnia pós-guerra há que colocar a esperança num futuro melhor em algo, não é? Mas Armin não suporta toda aquela pressão e a insistência incomodativa e, por vezes, impertinente do pai, e isso torna-o num miúdo azedo e difícil de aturar.

“Armin” é a história da viagem que pai e filho encetam até a um hotel em Zagrev, para participarem numa audição de um filme alemão sobre o conflito nos Balcãs. E que melhor forma há para duas pessoas se conhecerem do que passarem um par de dias juntos?

Choque de gerações e drama que explora as sempre tensas relações entre pai e filho, “Armin” faz ainda lembrar Jacques Tati e o seu senhor Hulot, quando Ibro, um filho da guerra da Jugoslávia, é colocado num micro-cosmos alienado pós-modernista (o hotel), de carros de luxo, fechaduras automáticas e secadores de mãos.

As crianças começam por amar os seus pais. Passado algum tempo, julgam-nos; e, raramente, perdoam-lhes - nunca a frase de Oscar Wilde fez tanto sentido.

MENINA (Primeiras Obras)

Duas mulheres bósnias refugiadas, cada uma com os seus traumas, vão-se descobrir uma à outra e a si próprias, num filme de descoberta que se vai revelando aos poucos e poucos. Para conferir aqui.

O PORTADOR DA ESPADA (Secção Oficial)

Sasha é um tipo vingativo como a breca, com uma espada gigante que lhe sai da palma da mão, neste filme russo de acção com mais buracos no argumento do que um queijo suiço, como podem comprovar aqui.

FALSO ALARME (Secção Oficial)

Em “Colisão”, diz-se que em Los Angeles as pessoas provocam prepositadamente acidentes de viação, por sentirem falta de contacto humano. No Festróia, a realizadora Katerina Evangelakou, na apresentação do seu filme “Falso Alarme”, falou do caso oposto que acontece no seu país: na Grécia, as pessoas vivem demasiado juntas e por vezes isso causa alguns problemas.

Definitivamente, o filme-mosaico está na ordem do dia. “Falso Alarme” é mais um desses exemplos, tendo como pano de fundo as várias vidas de uma pequena e simpática praceta, onde o alarme de um carro mal estacionado teima em tocar sem razão aparente: a tentativa de Andreas (Erricos Litsis) em reconsquistar a sua mulher; as inseguranças das manas Loukia (Loukia Mihalopoulou) e Niki (Vaso Kavalieratou); ou o assalto que Nicholas (Anastasis Kolovos) e Dinos (Makis Papadimitriou) fazem à casa da velhota Irene (Irini Moraki). E pelo meio há ainda a bela Alexia Kaltsiki, uma das shooting stars que em 2005 abrilhantou a passadeira vermelha do Festival de Cinema de Setúbal.

Um dos trunfos de “Falso Alarme” é o á-vontade e o realismo dos diálogos, que faz com que o filme nunca se torne aborrecido, mesmo que as ideias não sejam sempre as mais originais. Obviamente, que a referência principal que vem à cabeça é a de Robert Altman, mas há em “Falso Alarme” muito mais de Woody Allen e dos seus diálogos caóticos.

Como é (quase) obrigatório nestes casos, o filme fecha com as estórias a convergirem todas num ponto em comum, utilizando aquela ideia de comunidade e vizinhança para enfatizar o isolamento de cada um daqueles grupos de personagens. E enquanto isso, o alarme de um carro estacionado lá fora continua a tocar…

DIA 3 (a minha visão das coisas)

04.Jun.2007

MADRIGAL (Secção Oficial)

Poderá sair do Festróia sem nenhum prémio na carteira (o que é o mais provável), mas há uma disitnção da qual “Madrigal” já não se safa: a de filme mais estranho desta edição (e da anterior, e da anterior à anterior, e da anterior à anterior à anterior…).

Haverá algo pior para um actor de teatro do que ter apenas um espectador na noite de estreia da sua peça? Aparentemente não, mas há: se esse espectador abandonar a peça a meio. É isso que acontece a Javier (Carlos Enrique Almirante) e que dá o pontapé de saída para “Madrigal”.

Normalmente, os filmes partem da realidade para a reflexão; contudo, “Madrigal” faz uma inversão da equação e parte antes da reflexão para a realidade. “Madrigal “são duas histórias que se cruzam: uma metáfora gigante à situação política cubana (principalmente, na segunda metade do filme, quando se transforma numa distopia erótica de ficção-científica), que tem como linha orientadora uma história de amor e como pontos-comuns uma peça de teatro - pertinentemente intitulada “Os Cegos” - e um livro que Javier está a escrever.

Sempre envolto numa aura negra, de escuridão, fumo e chuva, “Madrigal” faz lembrar por vezes um filho menor de David Lynch. No entanto, enquanto que em “Mulholand Drive”, por exemplo, às vezes estamos a ver coisas que não entendemos mas que ficamos com a sensação de que assistimos a algo importante, em “Madrigal” isso nunca acontece. A ideia que nos passa é que tudo é, praticamente, irrelevante. Além disso, existe um piano que toca de forma sombria a cada cinco minutos, o que nos faz, gradualmente, começar a querer despedaçar com uma marreta as colunas da sala de cinema.

A melhor parte de “Madrigal” é, sem dúvida, a segunda metade, a tal distopia erótica onde o sexo é obrigatório e, consequentemente, uma ditadura. Visualmente apelativa, com uma degradância romântica, faz ainda um paralelismo com a primeira metade do filme, apesar de a mensagem final ser igualmente irrelevante.

“Madrigal” não é nem bom nem mau filme. É… diferente.

CULTURE BOY (Independentes Americanos)

Para quem pensa que o cinema gay é só música disco manhosa, homens em tronco nu e sensibilidade cor-de-rosa, eis um retrato psico-sociológico de um triângulo amoroso, para conferir aqui.

O CAMINHO DE SÃO DIEGO (Secção Oficial)

Eis o regresso de Carlos Sorin ao Festróia. E pela inspiração do filme, desconfio que voltará a sair de Setúbal com mais algum prémio na bagagem.

DIA 2 (a minha visão das coisas)

03.Jun.2007

OS OPTIMISTAS (Secção Oficial)

Voltaire disse, certa vez, que o optimismo consiste em achar que tudo está bem, mesmo quando tudo está mal. “Os Optimistas” ilustra esta frase com imagens, fragmentadas em cinco histórias sem relação aparente, no regresso do filme-mosaico.

Na apresentação ao filme, o argumentista (e filho do realizador) Vladimir Paskaljevic, dizia que se na Bósnia houvesse um sol como o nosso, de certo que teria escrito um filme mais optimista. De facto, o título é apenas uma ironia, uma vez que “Os Optimistas” são cinco histórias pessimistas, numa alegoria fatalista.

Todos os segmentos são de ligeireza de argumento notável, alternando o registo entre o drama de faca e alguidar e a trágico-comédia com apontamentos agri-doces. E após um começo algo tremido, as histórias ganham cada vez mais consistência até terminar num autêntico sufoco de emoções.

Com uma realização sóbria e certinha, Goran Paskaljevic destaca-se na forma como captura o desespero das suas personagens, todas elas com uma pontinha de redenção, através sobretudo do recurso aos grandes planos e à banda-sonora tradicional.

Para já, é para acreditar até ao fim que o filme poderá arrecadar o Golfinho de Ouro. Ou não se chamasse “Os Optimistas”.

NAS COSTAS DO DIABO (Homenagem a Espanha)

Antes do notável “O Labirinto do Fauno”, Guillermo Del Toro já tinha visitado a Guerra Civil espanhola, os monstros (humanos e desumanos) e as crianças como heróis principais. Para conferir aqui.

DIA 1 (a minha visão das coisas)

03.Jun.2007

Em 23 anos de Festróia, esta é a primeira vez em que o seu pai, Mário Ventura, não está presente, depois de nos ter deixado no ano passado. Assim, esta edição do festival não poderia arrancar sem a devida homenagem.

Foram momentos comoventes que se viveram com a exibição de um pequeno filme de tributo, enquanto uma banda de covers(?) interpretava ao vivo uma selecção de temas, cujo gosto fica ao critério de cada um. Depois, seguiram-se testemunhos emocionados de Renzo Fegatelli e Baptista Bastos. Mas como dissera o vocalista da tal banda durante a sua personificação de Freddie Mercury, o espectáculo tem que continuar.

Este ano abriu-s eo Festróia com a homenagem ao cinema de nuestros hermanos: Os Invisíveis primeiro e a ante-estreia nacional de Capitão Alatriste depois. Ao mesmo tempo, no cinema Charlot, era exibido o clássico Anjo Azul, mas como eu ainda não consigo estar em dois lados ao mesmo tempo (mas estou a tentar), tive que o deixar passar.

OS INVISÍVEIS (Homenagem a Espanha)

Costumo dizer que o filme de abertura do Festroia não reflecte a qualidade do resto do festival. Nos últimos anos a excepção que faz disto uma regra terá sido, quiçá, “Colisão”. Por isso, as expectativas que levei para “Os Invisíveis” não eram muito exigentes.

“Os Invisíveis” é uma produção espanhola financiada por Javier Bardem, fragmentada em cinco estórias com um tema em comum, cada uma assinada por um realizador diferente: histórias de gente anónima deste Mundo, vitimada pela injustiça e pilhada nos seus direitos. Assim, da Bolívia à Colômbia, passando pelo Gana, pelo Congo e pelo Uganda, Isabel Coixet, Wim Wenders, Fernando Leon de Aranoa, Mariano Barroso e Javier Corcuera realizaram cinco mini-documentários filmados totalmente em digital.

O formato do filme relembra, vagamente, “Paris Je T’Aime”, pela forma como o filme-mosaico é complementado por pequenos apontamentos comuns. E tal como este, também os segmentos de “Os Invisíveis” pouco têm de semelhante entre si.

Vamos então por ordem: o segmento de Isabel Coixet é aquele que mais tenta afastar-se do formato comum de documentário. Filmado de forma voyerista, enquanto um narrador lê as comoventes cartas de uma boliviana para a sua irmã emigrada em Espanha, Coixet mantém-se fiél ao seu cinema depurado e sóbrio, de forma a passar a mensagem social. No entanto, o breve tempo disponível e a própria liberdade digital tornam-no quase inconsequente.

Wim Wenders aborda a questão africana do Congo, onde milhares de mulheres são violadas pelos soldados, rebeldes e polícia do país, que aproveitam um vazio legal para não serem punidos. Apostando apenas nos relatos das vítimas na primeira pessoa, Wenders complementa os testemunhos com pequenos truques estilísticos, onde sobrepõe duas imagens e transforma as mulheres em fantasmas difusos: os invisíveis de que o título fala.

Quanto a Fernando Leon e Javier Corcuera, o primeiro em África e o segundo na América do Sul, limitam-se ao formato académico do documentário. Se o primeiro ainda consegue um olhar clínico e imparcial junto das crianças do Congo, raptadas constantemente pelas guerrilhas para se trasnformarem em soldados, o segundo queda-se pelas regras de cartilha, num registo próximo do de reportagem alargada de noticiário.

Por fim, Mariano Barroso é aquele que dá o passo mais em falso. De forma a mostrar a hipocrisia das grandes empresas farmacêuticas, Barroso encena uma reconstituição do que poderia ser um caso real, metade passado no Uganda, metade passado nas altas instâncias de uma farmacêutica. O resultado? Uma espécie de novela com má qualidade de imagem.

Enquanto panfleto de consciencialização social, “Os Invisíveis” é irrepreensível. No entanto, de objecto cinematográfico, exceptuando os pequenos apontamentos estilísticos de Wim Wenders, “Os Invisíveis” tem muito pouco.

CAPITÃO ALATRISTE (Ante-Estreia Nacional)

Adaptação de um dos maiores heróis do folclore literário espanhol, naquele que é o filme mais caro de sempre em Espanha, com Viggo Mortensen no principal papél (e a falar fluentemente a língua de Cervantes). Para ler aqui.

Ele vem aí (V)

01.Jun.2007

Programação

01.Jun.2007

A poucas horas do arranque do 23º Festróia, enquanto estamos todos já em estágio, aproveito para deixar aqui, para os mais distraídos, um link aonde podem ir descarregar a programação completa do certame (retirado cordialmente do blogue Cetóbriga).